LOCAmotiva #9
Divagações pessoais, grilos da maternidade no capitalismo: cosméticos, culhão de bode, samba da vela
1 - Pessoalidades
Bons ventos, LOCAmotiva, chegamos no final de janeiro de 2026! Mais uma vez, lamento por não ter mantido a constância da escrita. Estou no 8º mês de gestação, por isso ando mais recolhida, sem muita paciência para eletrônicos, sem posição confortável para mexer no notebook e bem “miolo mole”. Eu já tinha visto que no 3º trimestre da gravidez a mulher ficava mais esquecida e mais confusa. O cérebro da mãe se reorganiza, aumenta os circuitos neurais relacionados à maternidade e os outros devem diminuir, porque olha, meu corpo e minha cabeça são integralmente do menino Kaian.
Mãe. Essa palavra ainda me assusta e emociona um tanto (confissões).
Além disso, direcionei muito essa LOCAmotiva para o lado pessoal, não é? Comecei a pensar que isso não interessaria a ninguém e topei justo com um texto da Juliana Gomes, do Jornal do Veneno, quem mais acompanho aqui no Substack, dizendo que ninguém quer saber sobre a sua visão pessoal nessas publicações. E concordo com ela.
Mas confesso que já não tenho mais o compromisso com a informação e a objetividade jornalística. Tô fora do ramo tem tempo. Nem tenho coragem de chamar isso aqui de newsletter. Está mais para uma versão do blogspot.com adolescente (pelo menos não é a IA que está escrevendo). Então, persisto nas aleatoriedades da minha cabeça.
Enquanto no Instagram estão todos postando suas conquistas do ano, os aprendizados, as fotinhas de 2016, as confraternizações, cartas para si mesmo, etc. eu vou confessar desventuras (pode ser?). Acho que é o que mais sei fazer. Antes de tudo, ressalto que não estou reclamando, apenas constatando (aprendi cedo o que é eufemismo), sem peso algum, porque estou ciente de que somos seres mutáveis de aprendizados e expectativas. Cada “não conquista” é uma possibilidade de conquista, afinal. Toda desilusão tem a ilusão como essência. Se está no plano das ideias, é possível de ser executada.
Em 2025, eu ainda não aprendi a comprar toalhas novas. Comprei duas que espalham a água na pele em vez de enxugar e ainda soltam pêlos. Eram baratas, mas não as mais baratas. Por que ainda fabricam essas coisas? Cadê os designers de produtos têxteis? Devem estar escondidos junto com os que inventaram as toalhas de papel que rasgam ao toque e grudam na mão, os fabricantes de sacolas plásticas e de outras inutilidades do capitalismo.
Ainda não sou uma “dona de casa” exemplar em 2025. Os panos de prato estão manchados, as roupas estão rasgadas, não tenho caldo de legumes congelado no freezer, nunca fiz mocotó, buchada ou rabada. Os 15 anos de vegetarianismo não servem de desculpa, porque tampouco fiz uma pamonha enroladinha ainda na vida.
Mas pelo menos comi pamonha no último dia de 2025 (Gabriel quem fez):

2 - Cosméticos
Ainda no tema inutilidades do capitalismo, me perguntei: “como o marketing pode pegar tanto na cabeça das pessoas a ponto de todos consumirem sem questionar?”. Queria falar do caso específico dos cosméticos e produtos de higiene.
Comecei a pensar sobre isso em meados de 2011/2012, quando passei a ler mais os rótulos dos produtos. Lá por 2018/2019, pesquisei mais, me assustei e quis aprender a fazer sabão, desinfetante e desodorante em casa. Agora, grávida, a indignação só cresceu, porque muitos produtos considerados básicos, como protetor solar, hidratante e xampu têm químicos pesados que são facilmente absorvidos pela pele, vão para corrente sanguínea, placenta, leite materno e podem causar efeitos adversos endócrinos, reprodutivos e imunológicos. Mas percebi que quase ninguém dá muita atenção para isso. Médicos recomendam, pessoas presenteiam e quem reflete sobre isso acaba virando a “exagerada”, “paranoica”.
Esses sintéticos foram difundidos no séc. XX, pós segunda guerra. São os tais dos parabenos, sulfatos, fragrâncias, silicones, petrolatos, polietilenoglicóis, triclosan, ftalatos, alumínio, oxibenzona, octinoxato, homosalato, avobenzona, octocrileno, formaldeído, tolueno, formol...
A Anvisa estabelece uma quantidade mínima permitida. Mas e a fiscalização? É constante e confiável? Acho que não. Em alguns casos, as pesquisas ainda precisam de aprofundamento e isso não vai interessar à indústria, claro. E tudo está muito relacionado ao tempo de exposição também. Mas, se um ingrediente não é recomendado para grávidas e bebês, o que te faria pensar que ele é seguro e benéfico para adultos “normais” usarem todos os dias?
Os parabenos, por exemplo, podem aumentar a ação de hormônios como estradiol, podendo levar à expressão gênica de células causadoras de câncer de mama (Gama, 2025, p. 45).

Sem contar que esses produtos químicos não são biodegradáveis, entram nos esgotos e poluem as águas. Estudos mostram que compostos comuns nos protetores solares causam diversos impactos ambientais. A oxibenzona se acumula nos corais, o óxido de zinco branqueia os corais, a avobenzona afeta a capacidade fotossintética dos corais, o octocrileno se acumula nos tecidos dos corais (Santos; Sadauskas-Henrique, 2024, p. 166-171).
É difícil fugir da indústria quando o assunto é filtro solar, mas sei que os compostos naturalmente presentes nas plantas, como os taninos, flavonoides e alcaloides, podem ter ação fotoprotetora e já tem estudos que comprovam a eficácia de protetores solares feitos de extrato de plantas. Ao mesmo tempo, sei que a incidência de raios solares está cada vez mais intensa e as ondas de calor cada vez mais absurdas. Os desequilíbrios ambientais parecem fazer parte de um sistema antinatural que se retroalimenta constantemente.

3 - Plantas
Hoje vou falar sobre uma planta que não é nativa, fugindo um pouco da proposta, só porque aqui em Canoa Quebrada tem muuuitas dela. Duas exóticas, ela e o nim, dominam geral aqui, principalmente nas áreas mais urbanas, e isso me impressionou.
Nas áreas mais afastadas e na areia, o que mais vi foram coqueiros (a exótica mais querida na minha opinião, junto com a manga), cajueiros (com frutos gigantes e suculentos), batata da praia (super importante, porque protege as dunas da erosão), carnaúbas (palmeira magnífica!!), palmas e outras que ainda não reconheci. Quero falar sobre cada uma delas ainda.
Por enquanto, vou mostrar a Calotropis procera, da grande família Apocynaceae (subfamília Asclepiadaceae). Esta fotografei ainda em Cavalcante:

A folha é revestida por uma cutícula espessa e cerosa, que a protege em ambientes áridos. Também pode ser chamada de “algodão-de-seda” ou “algodoeiro-de-seda”, veja só por quê:

A Calotropis procera parece que veio da África, Índia e Pérsia e se adaptou muito bem ao semiárido brasileiro e a solos salinos. O que me surpreendeu foi a quantidade de usos medicinais dela, com pesquisas já consolidadas sobre o uso das folhas, tronco, raízes e do látex.
O extrato das folhas e das raízes tem uso popular registrado como antialérgico, analgésico, anti-inflamatório, antitumoral, larvicida e nematicida. O extrato da raiz foi testado em ratos como contraceptivo e sugere-se que possa servir para o tratamento da demência inicial também.
O látex, em contato com o vento, forma uma borracha que imobiliza os insetos. É o sistema de defesa da planta. Ele é tóxico para os ovos e larvas do A. aegypti, por exemplo. Esse látex pode causar inflamação intensa. Mas o pó preparado dele tem histamina e está sendo estudado para uso em remédios anti-inflamatórios. O látex seco ainda induziu a produção de mais antioxidantes hepáticos.
Foi comprovada também a fitorremediação da planta, ou seja, seu poder de descontaminar água e solos halófilos (com microrganismos que se proliferam em ambientes com sal) e absorver metais pesados, como cromo e arsênio.
Li também que a folha seca suplementa a dieta do bode na seca extrema.

4 - Palavra
Penduricalho, mais uma pérola que aprendi a falar com a minha mãe, significa “coisas penduradas”. Ela fala muito para se referir à bijuteria. “Saí sem meus penduricalhos”, eu usei esta semana, querendo dizer que não coloquei meus anéis para sair de casa. Eis que o Google me sugeriu um sinônimo mais bonito: “balangandã”. Com certeza substituirei. Balangandã tem origem africana e remete a uma joia ancestral, um amuleto de proteção e força espiritual, que é como uma pulseira. Quando se move, ele faz barulho. O nome “balangandã” se refere a esse barulho.
5 - Música
Essa semana, o Kaian foi na sua primeira roda de samba na barriga (e como mexe ao som do surdo!). Canoa Quebrada recebeu o “Samba da Vela”, uma comunidade de samba fundada no ano 2000, na zona sul de São Paulo, e que se tornou um dos movimentos culturais mais importantes e únicos do Brasil.
O samba da vela veio para o Ceará pela primeira vez desde que um de seus fundadores, Chapinha da Vela, saiu daqui como retirante. A emoção que ele sentiu de estar aqui foi contagiante. Ele é um dos grandes sambistas do Brasil e fez parte da ala de compositores da Vai-Vai nos anos 80.
O samba da vela é um verdadeiro culto: eles acendem uma vela ao centro e a música rola enquanto a vela estiver acesa. Os músicos têm a nobre missão de apresentar novos compositores. A cor da vela é específica para cada ocasião: rosa para mostrar uma nova composição, azul para treiná-la e memorizá-la e branca para cantá-la por dois meses. Nos vídeos no Youtube dá pra ver que os participantes recebem um caderninho pra cantar junto.
As poesias sonoras versam sobre sentimentos, saudade, amor, encontros e situações inusitadas e engraçadas da vida. Esta que escolhi é de Leandro Zóio e Cecel “Bamba Leão”, “O Tempo”, lição de vida e canção vitoriosa do caderno de 2022.
"Ensinar o que aprendi, aprender o que eu não sei. Aproveite bem o tempo pois o que se vai não vem”:
6 - Estourei os caracteres
Estourei os caracteres e Kaian está quase estourando a minha barriga de ficar sentada. Não vou pedir apoios à escrita porque está rareada, mas prometo que volto antes para quem queira ler despretensões. Vou colocar aqui o banner de apoio às fraldinhas e enxoval, caso você não tenha visto, e já vou dando tchau! Obrigada por estar aqui.
Referências desta edição:
ANDRADE, Sanduel Oliveira de et al. Potencial da Calotropis procera (Aiton) WT na fitorremediação e em aplicações terapêuticas. Scientia naturalis, 2025, vol. 7, n. 1. Disponível em: https://periodicos.ufac.br/index.php/SciNat/article/view/7944
GAMA, Jamyle Victória Gonçalves. Avaliação de efeitos tóxicos e potencial carcinogênico associados a componentes cosméticos. Orientador: Prof. Dr. Ronald Feitosa Pinheiro. 2025. 57 p. Trabalho de conclusão de curso. Bacharelado em Ciências Biológicas, Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2025. Disponível em: https://repositorio.ufc.br/bitstream/riufc/82286/3/2025_tcc_jvggama.pdf
SANTOS, W. R. S.; H. SADAUSKAS-Henrique, H. Efeitos e Impactos dos Protetores Solares em Recifes de Corais: Uma Revisão Bibliográfica. Anais do XIII Encontro Nacional de Pós-graduação. Laboratório de Ecofisiologia e Bioquímica de Organismos Aquáticos (LEBIO), Universidade Santa Cecília (UNISANTA), Santos-SP, 2024. Disponível em: https://periodicos.unisanta.br/ENPG/article/view/2208/2201
SILVA, Márcia Calheiros Chaves et al. Therapeutic and biological activities of Calotropis procera (Ait.) R. Br. Asian Pacific Journal of Tropical Medicine, 2010. Vol 3, issue 4, p. 332-336. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1995764510600818






Vou aderir tbm ao balangandã hahaha
como sempre, uma leitura que me prende do início ao fim, sem sombra de dúvidas.
que o neném venha com muita saúde🥺🥺